domingo, 23 de junho de 2024

Dom Leonardo: “Levar Jesus é a essência do discípulo missionário, dos seguidores e das seguidoras de Jesus”


Na homilia do 12º domingo do Tempo Comum, o arcebispo de Manaus, cardeal Leonardo Steiner, iniciou suas palavras lembrando o texto do Evangelho: “Ao cair da tarde, Jesus disse a seus discípulos: Vamos para a outra margem!”. Ele lembro que a passagem do Evangelho do dia começa dizendo: “Ao entardecer… (Mc 4,35)”. Ele lembrou as palavras de Papa Francisco no meio da pandemia do Covid19 na Praça de São Pedro vazia, “onde nos consolava com estas palavras, demonstrado o que era o entardecer, o cair da tarde, mas com confiança na travessia”: “Desde há semanas que parece entardecer, parece cair a noite. Densas trevas cobriram nossas praças, ruas e cidades; apoderaram-se de nossas vidas, enchendo tudo com um silêncio ensurdecedor e de um vazio desolador, que paralisa tudo à sua passagem: pressente-se no ar, nota-se nos gestos, dizem-no os olhares! Encontramo-nos temerosos e perdidos. À semelhança dos discípulos do Evangelho, fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furibunda.”


Segundo o arcebispo, “somos convidados à travessia, a buscar outra margem. Ao cair da tarde buscar a outra margem. Ao cair de um dia, quando começa a descer a noite, quando percebe-se findar uma possibilidade, quando as possibilidades parecem findar, buscar a outra margem. Ao cair da tarde, quando estamos a perder a luz, quando estamos para perder os olhos, quando os olhos começam a perder o ver; quando a necessidade de ultrapassar o já visto, o já compreendido, ultrapassar a segurança do tudo saber, do tudo ter, buscar a outra margem. No meio das dificuldades, no meio da tormenta, no meio do burburinho, no meio de tantos sofreres e não saberes, somos despertados pela outra margem: da liberdade, da fé, da misericórdia, da esperança, da vida do Reino. A outra margem nos atrai. A outra margem é mais que a espera de um novo dia! É travessia”.


Dom Leonardo analisou o texto de Marcos, a nos dizer que os discípulos “despediram a multidão e levaram Jesus consigo, assim como estava, na barca” (Mc 4,36). Nesse versículo, o arcebispo de Manaus destaca que “eles levaram Jesus com eles. Levar Jesus é a essência do discípulo missionário, dos seguidores e das seguidoras de Jesus. Levar significa, carregar o próprio Filho de Deus que não tem casa, pois todos os homens, todas as criaturas, todos os povos são sua casa. Fazer a travessia com Jesus. Ele presente no barco; Ele a travessia: caminho, verdade e vida. Ele estará sempre na quase não presença no fundo da barca”.


No meio da travessia, diz o texto, “começou a soprar uma ventania muito forte e as ondas se lançavam dentro da barca, de modo que a barca já começava a encher-se de água” (Mc 4,37). “Os ventos, as ondas, a agitação, e os discípulos tomados pelo medo de soçobrar. Os ventos, as ondas que nos agitam, despertam sentimentos de morte de desesperança”. Se referindo à travessia dos nossos dias, dom Leonardo Steiner os identificou com “os ventos e as ondas da violência, da pandemia, da agressão, da ganância a qualquer custo, do desemprego, da fome, das águas, do negacionismo, da destruição do meio ambiente, da negação da ética; quantas ondas e ventos. Ondas a nos atingir às vezes duas de cada vez, somos tomados pelo medo de afundarmos como sociedade como pessoas dadas à convivência”.





Esse vento forte e agitado, destruidor e essas ondas violentas que nos fazem temer pela vida de nossas famílias, pela moral de liberdade e integridade. Essas ondas agitadas e ventos de ídolos do vazio, da religião mascarada e mercantilizada. Uma religião de um ritualismo vazio, sem amor aos pequenos e abandonados. Essa onda de morte e vingança que leva a encher o barco a existência, das paixões humanas e do mundo - os ídolos do poder, do domínio sobre os outros, da competição religiosa; a ansiedade pela fama e pelos aplausos do mundo. Na medida em que buscamos o outro lado essas tensões e desumanidades se apresentam como sinais de morte. Não existe travessia sem tensão, sem desconforto, sem ventos fortes e ondas agitadas. É que nos dada a graça da vida nova do reino de Deus: transformação”, enfatizou o cardeal.


Citando as palavras de Rombach, quando fala do sofrer, o arcebispo de Manaus disse: “Através da experiência da cruz o homem aprendeu a ver o sofrer de outro modo. Sempre houve sofrimento, mas ele não era sofrido. Só com o sofrer divino o homem aprendeu a captar o sofrimento como figura fundamental do ser-homem: o homem que sofre tem um direito infinito, sua figura é intocável, nem repreensão nem acusação, nem boas palavras e exortações, nem louvação e recompensa nem meras ajudas técnicas são de valia para ele. O sofredor perdeu algo de irreparável, a pátria, os seus, o sentido. Caso nele a dor se transforme em sofrer, então ele se torna um indivíduo infinito, que não é alcançado por nada mais. O sofredor tem um direito absoluto. Rente a ele não passa nenhum caminho. Nele se torna presente o ser-homem e a humanidade. Nisso reside seu serviço, sua oferenda, sua tarefa: sofrer como experiência da infinitude e ajudar como um suportar estar junto. Nessa figura em que co-pertencem sofrer e suportar-junto, as existências individuais crescem para fora e para além de si.”


A travessia é uma espécie de purificação, de conversão, de mudança de vida. Melhor é uma imersão sempre maior e mais dinâmica no Evangelho, no modo de viver de Jesus que sofreu na cruz até a morte”, segundo dom Leonardo. É por isso que “na travessia Jesus conosco! Jesus a nos levar no meio de tudo o que acontece na travessia. Ele ali no meio das tormentas, a dormir e nós esquecidos de sua presença, apesar de termos levado conosco. É no meio da agitação e do desassossego o buscamos e o vemos. E com sua presença, apesar da agitação e do odor de morte, nos entregamos à suavidade de sua presença e somos tomados pela serenidade das ondas e dos ventos.”


Citando uma homilia de Santo Agostinho, no Sermão 75, sobre o texto de Evangelho do dia, o cardeal Steiner lembrou: “Não há ninguém neste mundo que não seja viajante, ainda que nem todos desejem regressar à pátria. Nós sofremos com as ondas e as tempestades que decorrem da travessia, mas, mesmo assim, fiquemos na barca. Com efeito, se dentro da barca corremos perigo, fora dela a morte é inevitável! Aquele que nada em alto mar pode ter muita força em seus braços, mas será, cedo ou tarde, vencido pela imensidão do oceano, é devorado por ele e desaparece. Portanto, é necessário estarmos na barca, ou seja, sermos transportados pela madeira de um lenho, para poder atravessar o mar. O madeiro que carrega a nossa fraqueza é a cruz de nosso Senhor, da qual trazemos o sinal em nossa fronte, e que nos impede de ser engolidos pelo mundo. Sofremos as agitações das ondas, mas é o Senhor que nos transporta. A barca que transporta os discípulos, isto é, a Igreja, navegante, e a tempestade das provações a tomam de assalto. O vento contrário, ou seja, o demônio que faz oposição à Igreja, não se acalma, esforçando-se por impedi-la de chegar ao repouso do porto. Grande é, porém, aquele que intercede por nós. Com efeito, durante a tumultuosa navegação em que nos debatemos, ele nos inspira confiança, vem a nós e nos reconforta, a fim de que, sacudidos pela barca, não nos deixemos abater e não nos lancemos ao mar. Porque, mesmo se a barca é sacudida pelas ondas, é apesar de tudo uma barca, e somente esta barca transporta os discípulos e acolhe Cristo. Ela corre um grande risco no mar, mas, fora dela, imediatamente perecemos. Conserva-te, pois, na barca e clama por Deus. (...) Aquele que concede aos navegantes a graça de chegar ao porto, iria acaso abandonar a sua Igreja, em vez de reconduzi-la ao repouso?”





Sobre Jó, “uma das figuras que admiramos e contemplamos na Sagrada Escritura”, que aparece na primeira leitura, dom Leonardo disse que “ele experimentou a noite, a tempestade; tudo desmoronou, despareceu, a morte se fez sua vida e a sua vida parecia morrer. No meio de tantas dores e sofrimentos, buscou permanecer na proximidade de Deus. Ao lermos o livro de Jó temos dificuldade de permanecer na fidelidade da leitura para nos darmos conta do significado da travessia, a travessia do abandono, da solidão, da sensação de perder Deus. É que no meio do lago, da tempestade, tem-se a percepção de perecer. No meio de todos os despojamentos, das perdas, da tempestade que se desencadeara na sua vida, Deus responde: ‘Quem fechou o mar com portas quando ele jorrou com ímpeto do seio materno, quando eu lhe dava nuvens por vestes e névoas espessas por faixas; quando marquei seus limites e coloquei portas e trancas, e disse: Até aqui chegarás, e não além; aqui cessa a arrogância de tuas ondas?’ (Jó 38,1.8-11). É extraordinária a expressão de Jó: ‘Eu te conhecia por ouvir dizer, mas agora, vejo-te como meus próprios olhos’ (Jó 42,5). Sim amados irmãos e irmãos é na travessia que vemos Deus. É no meio das ondas agitadas, no não mais saber, de nada mais poder que começamos ver a presença misteriosa e amável de Deus.”


Na segunda leitura, o cardeal destacou que Paulo “nos recordava essa transformação inexplicável: ‘O amor de Cristo nos pressiona’. Pois, ‘Cristo morreu por todos para que os vivos não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou’. E por estarmos em Cristo e Cristo está conosco na barca da travessia somos ‘uma criatura nova. O mundo velho desapareceu. Tudo agora é novo’ (cf. 2Cor 5,14-17). Por isso: travessia, a outra margem! Amor atrai amor, nobreza obriga! Porque o Evangelho é novo modo de viver, novo sentido de ser, somos atraídos pela outra margem e sermos com Cristo”.


“Travessia é um morrer-viver; um viver-morrer: renascimento! Uma nova vida! É renascimento! ‘Tudo agora é novo.’ ‘Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?’ Aquele que está conosco sempre na travessia. Mesmo que tenhamos a tentação de não percebê-lo, Ele está. Sempre estará. É na travessia que vemos que é ‘Esse a quem o vento e o mar obedecem’. Façamos a travessia!”, finalizou o presidente do Regional Norte1 da CNBB.



Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

sábado, 22 de junho de 2024

Diocese de Roraima envia dom Lucio Nicoletto para sua nova missão em São Félix do Araguaia, “uma Prelazia com uma história belíssima”


A Igreja de Roraima, onde ele foi missionário desde 2016, enviou neste sábado, 22 de junho, dom Lucio Nicoletto para sua nova missão como bispo da Prelazia de São Felix do Araguaia. Ordenado bispo na catedral de Padova no dia 1º de junho, catedral de Cristo Redentor acolheu uma celebração com a participação de mais quatro bispos, o clero local, a Vida Religiosa, e de representantes das paróquias e comunidades da diocese, dentre eles os migrantes e os povos indígenas.

Na homilia, após agradecer aos presentes, ao povo da prelazia de São Félix do Araguaia e aquele que foi seu bispo até agora, dom Adriano Ciocca, e aos bispos que participaram de sua ordenação episcopal em Padova, dom Lucio Nicoletto iniciou reconhecendo seu sentimento de gratidão, que nasce das “inúmeras memorias dessa caminhada que Deus me deu de viver aqui com vocês desde 2016”, um tempo marcado pelo conhecimento “dos mais pobres e de todos aqueles que sofrem”. Uma Igreja que ele define, seguindo Gaudium et Spes, como “uma Igreja que desde os seus primórdios guardou em seu coração o eco de toda realidade verdadeiramente humana”.  Uma Igreja que tem feito uma “reiterada opção pelos pobres e marginalizados, pelos povos indígenas e o povo dos migrantes e refugiados”.

O bispo eleito de São Félix do Araguaia questionou “como poderíamos justificar essa pressão de que fala São Paulo na segunda leitura que o amor de Cristo nos faz, esse coração ardente que a Palavra de Deus acende em nós a partir do momento em que como Maria e com Maria queremos dizer o nosso Sim a Cristo na missão evangelizadora?”, respondendo que “os pés das discípulas e dos discípulos de Jesus Cristo se colocam a caminho por causa de uma urgência!”, insistindo na necessidade de uma resposta de amor.

Assim como eu vos amei!”, ressaltou dom Nicoletto, uma resposta necessária “quando o nosso coração se depara com tanta violência e injustiça, com tantas divisões e polarizações, até mesmo dentro da nossa mesma igreja; quando sentimos o cansaço de tanta dor e a tentação de dar o fora. Numa hora como essa sentimo-nos representados pelos discípulos de Jesus na hora mais crítica dessa travessia no meio do mar da vida: Mestre, não te importas que estamos perecendo, que estamos sofrendo demais? Deus parece dormir”, disse o bispo.



Será que Deus se esqueceu de nós?”, questionou dom Lucio Nicoletto, refletindo sobre o significado da barca e o mar, mostrando que “o mar simboliza o perigo, a ameaça na vida” uma realidade presente na comunidade de Marcos. Mesmo diante do perigo, Jesus chama seus discípulos a continuar sua missão, “a ir ao encontro das pessoas nas diferentes situações e lugares onde estão”, onde ele vê representada a Igreja missionária, que “atravessa diferentes mares para ir ao encontro dos homens e mulheres para lhes comunicar a boa notícia do reino de Deus”.

Nas ondas do mar, dom Lúcio vê o “aburguesamento e cumplicidade: já fizemos bastante, pobres sempre existiram e existirão; o fundamentalismo e superioridade: é importante cuidar a pureza de nossos ritos, liturgias; as injustiças e discriminação para com a vida dos povos originários e migrantes; a rejeição para com as nossas crianças e jovens que ficam cada vez menos no topo de nossas preocupações e políticas públicas”. 

No texto, destacou o bispo, Marcos quer transmitir aos seus, que “quando a comunidade segue os passos de seu Mestre, vai sofrer perseguições, vai ter dificuldades, vai vivenciar noites de tormentas, mas Deus é maior que tudo isso”. Para cresce na fé, “somos convidados e convidadas a passar para o outro lado. Para isso é preciso atravessar o mar com a confiança que demonstra Jesus no texto: ele dorme sereno porque confia no Pai”, salientou dom Lucio Nicoletto, mostrando que “os discípulos ainda têm uma fé que se desespera e devem aprender de Jesus a ter uma fé que confia”.

Jesus grita, e em seu grito, se posiciona “diante de todo o mal que provocamos quando nos afastamos da lógica do amor e transformamos a fé numa ideologia; diante de nossa incapacidade de deixar-nos transformar pela sua Palavras em autênticos promotores de Justiça e de Paz para a realização da civilização do amor; diante da nossa obcecação pelo poder, pelo sucesso, pela ganância que desconsideram cada vez mais a vida dos outros e só se importa com a própria!”



No convite de Jesus para irmos para outra margem, dom Lúcio vê “um convite a uma conversão radical e permanente”, que exige “um contínuo e permanente processo de conversão, principalmente de uma vida mais pautada pelo egoísmo árido e mortífero para uma vida que seja fruto de um contínuo deixar-se plasmar por Deus como Jesus fazia, sempre em intima e profunda comunhão com o Pai, para aprendermos assim a guardar em nós os mesmos sentimentos que foram de Cristo Jesus”.

No Jesus apresentado pelo evangelista Marcos, o bispo vê “Aquele que veio para nos acompanhar no êxodo da vida e fazer-nos sentir que não estamos só, mas Ele nos guia e está conosco, como lâmpada resplandecente, como força profética para anunciar seu amor e sua justiça sem calar diante das ‘ondas’ do egoísmo e dos interesses particulares que não pertencem a Deus nem tampouco ao seu Reino”. Ele insistiu em que “essa é a tua vocação Igreja na Amazônia: ser sinal de Cristo Bom Pastor que ama e guia o seu povo com amor e ternura de Pai e Mãe, que abre para nós o caminho da vida plena para todos, que mostra para nós que não há salvação sem comunhão, não há misericórdia sem compaixão, não há evangelização sem missão, não há esperança sem conversão ao amor para com todas as criaturas”.

No final da celebração, dom Lucio Nicoletto recebeu as homenagens dos missionários italianos, do laicato, a Vida Religiosa, o clero, a Pastoral do Migrante, lembrando e agradecendo pelos momentos vividos juntos ao longo de oito anos, destacando aquilo que foi marcante nesse tempo em sua missão na diocese de Roraima. Foi lida a mensagem enviada pelo cardeal Leonardo Steiner, em nome do Regional Norte1 da CNBB, agradecendo seu trabalho no Regional.

Dom Lucio é enviado a “uma Prelazia com uma história belíssima”, disse dom Evaristo Spengler, bispo da diocese de Roraima, que lembrou dom Pedro Casaldáliga, primeiro bispo de São Félix do Araguaia. Igualmente, foi anunciado na celebração pela chanceler da diocese de Roraima, Ir. Sofia Quintans Bouzada, a incardinação na diocese do padre Jorge Dalben, que chegou em Roraima em 1968 como missionário da Consolata, se destacando pelo seu compromisso na defesa e promoção dos povos indígenas, sobretudo o povo Macuxi. Depois de quase vinte anos na diocese de Dourados, também trabalhando com os povos indígenas, quatro anos atrás voltou a Roraima, sendo agora incardinado e acolhido na diocese, onde seu testemunho é motivo de admiração numa Igreja sempre comprometida com a causa indígena.



Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

Mensagem do Regional Norte1 a dom Lucio Nicoletto em seu envio como bispo de São Félix do Araguaia


Na celebração de envio de dom Lucio Nicoletto como bispo da prelazia de São Félix do Araguaia, realizada na catedral Cristo Redentor da diocese de Roraima, o Regional Norte1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB Norte1) enviou uma mensagem assinada pelo presidente, cardeal Leonardo Ulrich Steiner, arcebispo metropolitano de Manaus.

O texto manifesta a alegria com que o Regional Norte1 recebeu a notícia da nomeação episcopal de dom Lucio Nicoletto, lembrando seu trabalho missionário no Brasil desde 2005, na diocese de Duque de Caxias, e desde 2016 na diocese de Roraima. O Regional Norte1 lhe agradece ao bispo eleito de São Félix do Araguaia pelos oito anos que trabalhou no Regional, destacando sua “doação e testemunho missionário”.

Igualmente, a mensagem agradece a dom Lucio Nicoletto, “por ter aceitado o pedido do Papa Francisco para exercer o ministério Episcopal na Prelazia de São Félix do Araguaia”, ressaltando a alegria pelo fato de continuar sua missão na Amazônia.

O Regional Norte1 pede a Deus “que, por intercessão de Nossa Senhora da Amazônia e de Nossa Senhora da Assunção, padroeira da igreja de São Félix do Araguaia, abençoe sua missão e lhe concede bom ânimo e generosidade para realizar seu pastoreio em meio ao povo que Deus está lhe confiando”, enviado a saudação dom Regional a dom Adriano Vasino Ciocca, predecessor de dom Lucio Nicoletto no pastoreio da Igreja de São Félix do Araguaia, e ao bom povo da estimada e querida Prelazia.


Luis Miguel Modino, assessor de comunicação do Regional Norte1 da CNBB


Comissão contra o tráfico de pessoas da CNBB encerra missão em Roraima, pedindo à Igreja tratar o tema de forma mais incisiva


Os frutos são aquilo que a gente carrega na memória. Depois de uma semana de missão na diocese de Roraima, com visitas na Guiana e na Venezuela, para a Comissão Episcopal Especial de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, chega o momento de concretizar os caminhos que ajudem a esquentar a resistência, a dar os passos para que a Igreja e a sociedade assumam para valer o enfrentamento ao tráfico de pessoas, para dizer alto e forte: “Tráfico de Pessoas existe! Enfrentá-lo é nossa missão!”.

Uma luta de muitos anos

Uma luta assumida na Amazônia pela Rede um Grito pela Vida durante mais de dez anos, e pelo Regional Norte1 da CNBB, que tem como causa permanente a prevenção ao abuso, exploração sexual e tráfico de pessoas. A Igreja de Roraima, que evangeliza a região desde 1725, e que em 1907 foi configurada como prelazia, confiada aos beneditinos do Rio de Janeiro, foi desde o início uma Igreja que fez opção pelos povos indígenas, com alto custo, pois sempre encontrou a oposição dos fazendeiros e da sociedade local. Uma luta em favor dos povos indígenas que tem preparado a Igreja de Roraima para a atual luta em favor dos migrantes, que podemos dizer também encontra forte rejeição em boa parte da sociedade roraimense.

A missão da comissão tem sido uma oportunidade para os participantes para renovar a esperança e o compromisso com a causa do enfrentamento ao tráfico de pessoas, para uma maior incidência dentro da Igreja e na sociedade. Uma visão ampliada da realidade ajuda a ter maior consciência daquilo que tem que ser mudado, dos desafios, do papel a ser assumido, em comunhão, caminhando juntos, em sinodalidade, com uma fraternidade alargada, criando redes de enfrentamento, sempre em vista do cuidado das vítimas.

Para isso, se faz necessário ter dados objetivos, alargar a escuta, dar a oportunidade do povo, dos migrantes, que confiam na Igreja católica, falar, andar sem pressa, maior interação com os migrantes, que favoreça o acolhimento. Uma missão que vai ajudar a elaborar informes para ajudar no trabalho pastoral da Igreja e na incidência política numa sociedade que nem sempre tem o olhar que deveria para com as vítimas do tráfico de pessoas.



Um problema global

“Nós viemos aqui como Igreja do Brasil, e nós vimos a necessidade de tornar a pauta do tráfico humano mais conhecida dentro da própria Igreja”, afirma o bispo de Tubarão (SC) e presidente da comissão, dom Adilson Pedro Busin. Ele lança um desafio à presidência da CNBB e do CELAM a assumir que o tráfico de pessoas “é um problema global que tem que ser tratado de maneira global”. Um problema que engloba toda América, e ele tem que ser tratado nessa dimensão, pedindo que “o CELAM, junto com as conferências episcopais de cada país, esse tema do tráfico humano seja tratado de uma forma mais incisiva e mais envolvente, inclusive com os bispos”.

O presidente da comissão insiste em que “é uma questão candente, ela perpassa as nossas fronteiras”, mas também em seus diversos aspectos, “é uma questão presente dentro de cada país, na exploração sexual, a exploração de mulheres e crianças, o trabalho análogo à escravidão, isso está em nossos países”. Diante dessa realidade, o bispo ressalta que “essa temática tem que ser tratada com mais amplitude”. Como comissão, ele disse que “fica o desafio de irmos a outra realidade, a outro estado do Brasil, mover, cutucar e provocar à imprensa local, às autoridades locais, acima desse tema”.

Para a diocese de Roraima, “ficam desafios maiores, porque nós estamos mais conscientes de toda a realidade de tráfico de pessoas, exploração sexual, que está interligado a muitos outros tráficos, de armas, de mercúrio para o garimpo ilegal”, afirma o bispo local, dom Evaristo Spengler. Por outro lado, “uma consciência maior, e isso leva a uma organização maior enquanto Igreja e enquanto sociedade para um trabalho em rede”, sublinho o bispo.



Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1

sexta-feira, 21 de junho de 2024

Colóquio na Universidade Federal de Roraima sobre Tráfico Humano: dar respostas aos clamores dos migrantes


Numa sociedade em que os migrantes sofrem xenofobia, falta de oportunidades, preconceito, tristeza, desemprego, desproteção, antipatia, racismo, se faz necessário superar essas atitudes, e para isso a colaboração de todos é decisiva. Alargar o espaço da tua tenda, de cada um de nós, das famílias, da sociedade, da Igreja, algo que nos pede a 39ª Semana do Migrante, é uma atitude inadiável.

Um trabalho conjunto, como foi destacado no III Colóquio: Tráfico Humano, realizado na Universidade Federal de Roraima, uma universidade sempre aberta às causas sociais, com grande presença, especialmente de migrantes, e também os participantes da missão que está realizando a Comissão Episcopal Especial de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. O presidente da comissão, dom Adilson Pedro Busin, bispo de Tubarão (SC), agradeceu a possibilidade de participar do colóquio. Numa semana em que a comissão quis ver e escutar diversas realidades que são vividas em Roraima pelos migrantes, mas também na Guiana e na Venezuela, para mostrar que “o tráfico de pessoas existe, enfrentá-lo é nossa missão”. Se trata de buscar luzes para reconhecer que o tráfico de pessoas existe e juntos enfrentá-lo, destacou o bispo, que deu a conhecer os objetivos da comissão e os materiais que orientam e ajudam a combater o tráfico de pessoas.



Um momento importante para uma Igreja missionária sem fronteiras, segundo destacou dom Gonzalo Ontiveros, bispo do Vicariato Apostólico do Caroní (Venezuela), participante do colóquio, que mais uma vez agradeceu a acolhida do povo brasileiro aos migrantes venezuelanos. O colóquio pretendia escutar as demandas dos migrantes, buscando respostas aos clamores presentes em sua vida. Em primeiro lugar, num evento para sensibilizar à população roraimense sobre a realidade da migração, foi questionado em relação aos idosos migrantes que estão chegando no Brasil, à dificuldade para conseguir um trabalho estável, uma casa.

Diante dos questionamentos foi apresentada a proteção social básica existente no Brasil e as condições para ser beneficiários. O direito ao trabalho é garantido, é um direito social fundamental, independentemente de sua nacionalidade, nas mesmas condições e remuneração que qualquer brasileiro. Daí a importância da sensibilização para combater a exploração laboral, mostrando para os migrantes os direitos que ele tem, para evitar ser explorado e reduzir a vulnerabilidade, segundo mostrou o representante do Ministério Público de Roraima, que insistiu em combater o tráfico de pessoas, uma urgência diante do fato do Ministério Público do Trabalho de Roraima ter recebido só uma denúncia em 2024, o que mostra o medo a denunciar existente.



Igualmente foi informado sobre os passos a ser dados para revalidar os títulos universitários de outros países. Algo que pode facilitar entrar no mercado laboral, onde os migrantes recebem um salário 30 por cento menor do que os brasileiros pelo mesmo serviço, 35 por cento no caso das mulheres. Não alugar uma casa para migrantes é algo ilícito, mas muitas vezes, dada a burocracia existente no Brasil, os migrantes acabam pagando aluguel mais caro. Diante disso, se faz necessário que os migrantes possam ter acesso às políticas de habitação popular.

A vulnerabilidade entre os migrantes faz com que eles sejam recrutados para trabalhar em garimpos e fazendas, se tornando vítimas do tráfico humano, sem receber os devidos direitos trabalhistas, insistindo em que a dignidade humana não tem fronteiras. Essa vulnerabilidade também está presente também entre as crianças, com dificuldade para poder aceder ao sistema educativo, muitas vezes dificultado pela falta de informação e a grande burocracia existente.

Diante dessa realidade, precisa de muita mobilização social, o que demostra a importância de momentos como o colóquio realizado na Universidade Federal de Roraima. A articulação é algo fundamental, ir somando pessoas nessas causas, trabalhar em rede, se fortalecer, denunciar situações de tráfico de pessoas presentes na sociedade, como caminho para avançar na acolhida dos migrantes e no enfrentamento ao tráfico de pessoas. Para isso, o bispo de Roraima, dom Evaristo Spengler, disse que o contato entre as instituições presentes no coloquio vai ser permanente, em vista de enfrentar uma realidade invisível, onde as vítimas têm amarras que as impede denuciar. "Quando se reúne pessoas há caminhos de solução", ressaltou o bispo.



Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte1