terça-feira, 13 de agosto de 2019

Secrerário do Regional Norte 1 - AM/RR fala sobre sua caminhada eclesial

Falar da caminhada feita é um tanto complicado, pois falar de nós mesmos não é algo muito fácil. Sou Francisco Andrade de Lima, filho de agricultores, nascido em Tefé/AM, batizado na Comunidade Divino Espírito Santo, sede de uma Paróquia chamada Missão, com mais de 60 comunidades, todas ribeirinhas. Minha família residia num lugar chamado Santa Marta, às margens do Rio Solimões. É nesse lugar que inicia minha caminhada de fé.

Por causa da ausência de escolas, de serviço de saúde meus pais decidiram então mudar para a cidade de Tefé. Assim, poderiam nos proporcionar acesso à educação, à saúde… Cresci nesta cidade e ali continuei o processo de educação na fé. Fiz a primeira comunhão, confirmei a fé (crisma), celebrei o matrimônio e fui ordenado diácono.

Ainda jovem, aos 20 anos (1995), recebi de Dom Mário Clemente Neto o convite para colaborar na equipe de Coordenação de Pastoral da Prelazia de Tefé, que tinha como coordenador o Pe. Domingos da Rocha Ferreira, um padre Espiritano. Fui conhecendo melhor a Igreja, colaborei na formação de muitas lideranças ribeirinhas, ao mesmo tempo continuava o meu processo de formação. Já tendo como bispo Dom Sérgio Eduardo Castriani, fui convidado para assumir o serviço da Coordenação de Pastoral da Prelazia. No início, achei um tanto estranho: como um leigo jovem poderia assumir tal serviço? Mas fui animado e motivado pelo bispo e assumi.

A Prelazia não tinha ainda o Diaconato Permanente. Em 2005, Dom Sérgio convidou o então formador dos seminaristas, Pe. Teodoro Mendes Tavares (hoje Dom Teodoro Mendes Tavares, bispo da Diocese de Ponta de Pedras, no Pará), Ir. Ana Pedroso (uma Franciscana Missionária de Maria) e eu, para que apresentássemos uma proposta de uma escola diaconal. Nesta ocasião, já estávamos em um processo de animação vocacional em vista do diaconato permanente na Prelazia.

Depois de um longo tempo, no dia 11 de abril de 2010, foram ordenados os 4 primeiros diáconos permanentes da Prelazia de Tefé, e um deles sou eu. Como diácono, continuei os serviços na Coordenação de Pastoral, que já havia iniciado antes do diaconato como leigo, percorrendo os rios da Prelazia, colaborando na formação de agentes de pastoral.

Em 2015, Pe. Zenildo Lima da Silva, o então Secretário Executivo do Regional Norte 1 da CNBB, informou que os Bispos do Regional nos indicaram (eu e minha esposa) para assumirmos este serviço. No começo, achei complicado, pois seria uma mudança radical, inclusive de endereço. Depois de um longo discernimento com a esposa e filhas, decidimos aceitar a missão. Chegamos em Manaus em janeiro de 2016 para esta missão que estamos até hoje.

Para mim, fazer a experiência da vocação familiar, sendo pai, esposo, e, ao mesmo tempo, a vocação ao ministério ordenado como diácono permanente, apesar dos desafios, não tem sido difícil. Ter uma família que está sempre presente comigo, minha esposa e minhas duas filhas todas atuando, exercendo algum serviço na comunidade é algo que me incentiva e me faz cada vez mais ter certeza do caminho escolhido. O serviço que exerço na Igreja que tem origem no Cristo Servo, me faz muito feliz. O processo vocacional não termina, é um processo, continua por toda a vida, a cada dia vai sendo construído ao longo da vida.

Diácono Francisco Andrade de Lima
Secretário Regional – Norte 1

Fonte: http://repam.org.br/?p=3043

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Comissão Nacional dos Diáconos parabeniza bispo da Prelazia de Itacoatiara por inicar processo de formação ao diaconato

A Prelazia de Itacoatiara iniciou no dia 3 de agosto o processo de formação de diáconos diante da necessidade local. Ao tomar conhecimento, o presidente da Comissão Nacional dos Diáconos do Brasil, o diácono permanente Francisco Pontes pronunciou-se, parabenizando o bispo local, Dom Ionilton Lisbo por esta iniciativa.

Confira na íntegra:


Excelentíssimo e Reverendissimo Dom José Ionilton Lisboa de Oliveira.
Bispo da Prelazia de Itacoatiara
Estimados presbíteros.

Graça e paz!

A Comissão Nacional dos Diáconos do Brasil se alegra pela notícia do início do processo de discernimento e formação dos candidatos ao diaconato da Prelazia de Itacoatiara.
O ser, a vocação e a missão do diácono surgem da ação criativa do Espírito Santo, na Igreja primitiva diante das necessidades da comunidade e da urgência da Igreja em cumprir a sua missão (At 6,3). A restauração do diaconato permanente pelo Concílio Vaticano II não é um retorno somente a origem da Igreja, é muito mais que isso, ela vem responder a uma nova visão ministerial de Igreja. A história e as perspectivas pastorais que tanto motivaram os padres conciliares a restaurar o ministério diaconal, na verdade, eram motivações do grande protagonista da Igreja: o Espírito Santo.
O diaconato tem a sua origem na consagração e na missão de Cristo, nas quais o diácono é chamado a participar (cf. LG, 28a).
Nos últimos anos a vocação diaconal tem crescido, isto é, muitos bispos e presbíteros têm motivado e acolhido a vocação diaconal em suas dioceses. As diretrizes para o Diaconado Permanente da Igreja do Brasil (Doc 96 CNBB), indicam a as etapas do processo formativo, bem como o perfil e os pré-requisitos necessários para se tornar um diácono permanente. Além das diretrizes cada diocese estabelece os seus critérios segundo as necessidades da Igreja particular. Mais que nunca a Igreja espera dos diáconos disposição missionária para servir aos mais pobres nunca Igreja em saída, companheira no caminho. “A Conferência de Aparecida espera dos diáconos um testemunho evangélico e impulso missionário para que sejam apóstolos em suas famílias, em seus trabalhos, em suas comunidades e nas novas fronteiras da missão”. (DAp 208).
Nos unimos a Comissão regional dos Diáconos e nos colocamos à disposição para colaborador no processo formativo dos candidatos e rogamos ao Senhor da messe, que envie operários para a sua messe.
Que Nossa Senhora das Vocações e São Lourenço intercedam por esta iniciativa esperançosa para a Prelazia de Itacoatiara e para a nossa Igreja na Amazônia.

Fraternalmente,

Diác. Francisco Pontes
Presidente da CND

Manaus, 3 de agosto de 2019.

terça-feira, 30 de julho de 2019

Em Carta Pastoral, Comissão para o Enfrentamento ao Tráfico Humano convoca à ação

A Comissão Pastoral Especial para o Enfrentamento ao Tráfico Humano divulgou, neste dia 29 de julho, um Carta Pastoral, por ocasião do Dia Mundial contra o Tráfico de Pessoas, celebrado amanhã, dia 30. No documento, os representantes da Comissão reiteram seu compromisso no enfrentamento à realidade do tráfico de pessoas e conclamam a sociedade brasileira a empenhar-se em identificar as práticas de tráfico humano em suas várias formas e denunciá-las como caminho para a superação desta violação da dignidade humana.

Clique aqui e confira a carta na íntegra

segunda-feira, 29 de julho de 2019

PJ festeja 35 anos de caminhada, para sair em missão, desde a memória construída coletivamente

Qual é o papel que a juventude tem na sociedade e na Igreja? Realmente podem exercer um papel protagonista, ou são relegados na hora das decisões? Se tem uma coisa que sempre marcou a caminhada da Pastoral da Juventude (PJ), foi sua luta pelo protagonismo e empoderamento juvenil, o que não poucas vezes provocou conflitos dentro da Igreja. No Regional Norte 1 a PJ está comemorando 35 anos de existência, e para isso, mais de duzentos jovens tem se encontrado em Itacoatiara – AM, de 25 a 28 de julho, para participar do 8º Encontro Regional da Pastoral da Juventude.

No encontro se fizeram presentes três elementos importantes, a festa, a memória e a missão. Ao respeito deles, a Irmã Elsie Vinhote, assessora da PJ, reconhecia que existem “motivos de festa, de alegria da juventude da Amazônia, a pesar das dificuldades que o jovem passa”. Segundo a religiosa, “o motivo de ser festivo do jovem da Amazônia está na própria cultura, na sua própria maneira de ser”. Por isso, o encontro tem levado a “celebrar por ter vida diante de tantas ameaças à vida da juventude”. Em seus 29 anos de caminhada no meio da Pastoral da Juventude, desde que começou acompanhar um grupo de base, e depois as outras instâncias da PJ, ela faz memória desde “o significado do acompanhamento, de fortificar a fé para enfrentar dificuldades, de resistência, de eclesialidade e vivência da cidadania”, insistindo em que “a PJ firma nos jovens sua identidade, o protagonismo juvenil, a sua eclesialidade e missão na Igreja e na sociedade”.

Na hora de falar de missão dos jovens, a religiosa reconhece que “uma das dificuldades é o próprio tempo dos jovens e a preparação para dominar diversos temas ou assuntos”. Ela coloca como exemplo o mundo da droga, dizendo que “é difícil tentar tirar outro jovem desse vício, dessa marginalidade porque às vezes ele não tem os mecanismos ou os meios suficientes que sustentam”. A reflexão que surge daí é que “falta formação nessas áreas de fronteira, de situações de risco”, afirmando que “mesmo não sendo todos, há jovens que se envolvem, que tem um pouco mais de profetismo, de formação, de ousadia, talvez não tenham as soluções mas eles tem a presença”.

A importância do 8º Encontro da Pastoral da Juventude do Regional Norte 1, segundo Dom Tadeu Canavarros, bispo auxiliar de Manaus e referencial da juventude no Regional, “está na própria celebração, que vai envolvendo todo o Regional, as nossas diversas Igrejas que compõem o nosso Regional são enriquecidas por esta voz da Pastoral da Juventude de uma maneira especial”. O bispo auxiliar de Manaus destaca a “tríade que eles escolheram, baseado na festa, que é essa dimensão bastante juvenil, que nós encontramos de uma maneira muito caraterística na pessoa do jovem, depois essa dimensão da missão, do Evangelho, de levar a evangelização sempre a frente, e a memória, baseado na construção dos inúmeros pastores e jovens que abraçaram essa causa da juventude e que levam para frente”. Nessa dimensão, “celebrar tudo isso nesse contexto de 35 anos nos ajuda sempre a ouvir o clamor dos jovens”, segundo Dom Tadeu.

Neste  tempo inter sinodal, entre o Sínodo da Juventude e o Sínodo para a Amazônia, o papel da juventude, segundo o bispo, é “de principal protagonista”. Se referindo à frase do Papa Francisco, “não tenham medo de avançar para o futuro desconhecido”, Dom Tadeu afirma que “esse futuro, na região amazônica, está exatamente na mão dos jovens, que já desde agora começam a tomar atitudes concretas para realmente passar da lógica da espoliação para uma lógica do cuidado, assumir de fato todo o cuidado com a Casa Comum, toda a dimensão de preservação e viver daquilo que a floresta oferece sem, de fato, destruir”. O bispo referencial da juventude, vê os jovens como “vozes proféticas, porque lutam e persistem nessa caminhada”. Igualmente, o bispo local, Dom José Ionilton Lisboa de Oliveira, reconhecia a PJ como “uma força viva na Prelazia”, fazendo memória da música de Zé Martins que diz “eu quero ver, eu quero ver, eu quero ver a juventude acordar, eu quero ver, eu quero ver, todo jovem ocupando seu lugar”.

O encontro pretendeu, segundo Luiz Filipe Fialho, Secretário Regional da Pastoral da Juventude, “celebrar o caminho que foi conduzido por muitos pés e hoje está sendo caminhado por nós”. Ele reconhece que “o nosso posicionamento, a nossa opção preferencial pelos jovens vai interferir em gerações futuras, e esse processo, a Pastoral da Juventude vive um processo que é de ciclo, a gente percebe que esse ciclo vai se renovar com outros pés”. O Secretário Regional afirma que “a gente está aqui para festejar e depois sair em missão, a partir dessa memória que a gente constrói coletivamente”.

Desde essa perspectiva histórica, Luiz Filipe Fialho destaca que “hoje a missão da Pastoral da Juventude na Amazônia, sobretudo, que não é uma missão nova, mas que é uma missão que é permanente para a gente é construir políticas públicas, para a juventude indígena, para a juventude ribeirinha, para a juventude do meio urbano, porque a gente acredita que construindo e pautando a vida da juventude, com projetos e políticas públicas voltados para o bem viver, em uma construção coletiva, a gente está construindo um pouquinho da civilização do amor aqui nas terras amazônicas”.      

Nesse mesmo sentido, o Secretário Nacional da Pastoral da Juventude, Davi Rodrigues, presente no encontro, afirmava que “a juventude da Amazônia, ela tem o ponto de vista fundamental para a Igreja do Brasil e para a Pastoral da Juventude brasileira”. Segundo ele, “a juventude da Amazônia, assim como a Igreja da Amazônia, tem muito a nos ensinar a partir de experiências sinodais, da vida do povo, do cuidado da Casa Comum, do cuidado com a vida”, chegando a dizer que “hoje seria a grande chave de leitura para o mundo, a Igreja da Amazônia”. 

Na Amazônia, a presença do mundo indígena ainda é muito marcante em muitas regiões do interior. Nesse sentido, Luciane Mendes de Lima dizia que “para mim como indígena, a Pastoral da Juventude abre portas, no sentido da gente ter voz e procurar ter o nosso lugar dentro da sociedade, porque dentro do contexto da Pastoral da Juventude, ela nos ensina a lutar pelo nosso ideal, a lutar por outros jovens que não tem oportunidades, que ainda não conhecem e buscam, e têm medo”. A jovem do povo tariano afirma que “a Pastoral da Juventude tem esse papel de incentivar nós indígenas, nós jovens, a lutar pelo nosso futuro, não somente por ser indígena, mas por ser jovem”. Ela reconhece que “a Pastoral da Juventude me ensinou a falar o que eu penso, a lutar pelo que eu quero, e também lutar por aqueles que são capazes de ter um futuro e um espaço dentro da sociedade”.

A Leitura Popular da Bíblia, um aspecto presente nos grupos da PJ e que foi trabalhado durante o encontro, “além de inspirar no dia a dia, a gente vive uma juventude que está em busca de algo, não quer dizer que ela não busca, ela está em busca de algo, e aí a Palavra de Deus vem como uma essência para aquilo que eu estou buscando, ou às vezes uma resposta”, afirma Elaine Cristina Cardoso. Segundo ela, “eu preciso me encontrar, eu nem sei o que estou procurando, eu preciso me ouvir e a Palavra de Deus proporciona essa escuta também pessoal, além de ser uma escuta de uma conversa com Deus é uma escuta de mim mesmo e do que a sociedade está dialogando”. É por isso que considera “a Palavra de Deus é muito rica porque ela proporciona um diálogo comigo, com Deus e com a sociedade, ela é essencial na vida da juventude”.

A Pastoral de Juventude é uma história de rostos concretos, Francisco Andrade de Lima, atualmente Secretário Executivo do Regional Norte 1, é alguém que participou dessa caminhada. Desde sua visão, nesses 35 anos, a PJ “tem sido uma esperança para a Igreja”, afirmando que “a juventude tem seus anseios, que as vezes, pela infraestrutura da Igreja, não cabe nessa Igreja fechada, e a Pastoral da Juventude tenta ir ao encontro desses jovens do jeito que eles são, e isso cria um espaço de acolhida dessa juventude”. Em um mundo atual cheio de desafios, “a Pastoral da Juventude tenta trabalhar esse contexto que a juventude vive, sempre a partir da realidade do jovem, no contexto que ele está, e procurando trabalhar para que esse jovem se sinta acolhido”, afirma Francisco Andrade de Lima. 

Desde uma perspectiva muito presente no processo do Sínodo para a Amazônia, o protagonismo feminino na Igreja amazônica, tem sido motivo de reflexão no encontro. Uma das participantes da mesa redonda sobre o tema foi a Irmã Rose Bertoldo, que reconhece que “para a juventude é muito importante debater sobre isso, porque infelizmente as mulheres, principalmente as mulheres jovens, são invisibilizadas no trabalho que elas realizam nas comunidades”. Desde essa perspectiva, ela afirma que “precisa não só dar visibilidade, mas como empoderar as mulheres jovens para que ocupem espaços nessas comunidades onde estão presentes”.

Além do trabalho nas comunidades, a religiosa insiste igualmente “no trabalho que ela ocupam em outros espaços, por exemplo nas universidades, mesmo na questão da política, que foi um dos temas que foi muito debatido, os outros espaços de formação nas políticas, nos conselhos”, afirmando que “é essa a dimensão que a gente precisa trabalhar com a juventude, empoderar para que possam assumir esses espaços de forma consciente e fazer a diferença enquanto mulheres”. Junto com isso, ela destaca “a importância da participação, principalmente das mulheres jovens, nesse processo todo da escuta sinodal, e ainda influenciar os padres sinodais para que levem a voz das mulheres para o Sínodo para a Amazônia”.  

O Sínodo para a Amazônia, que realmente se mostrou entre os jovens participantes como um momento de mudança, de novos caminhos, esteve presente nas oficinas realizadas no 8º Encontro Regional da Pastoral da Juventude, assim como o Sínodo da Juventude, celebrado em 2018. Junto com isso, foi refletido sobre a cultura do descarte, o protagonismo feminino, a espiritualidade libertadora, a violência contra a mulher ou a história da PJ, dentre outros temas. São elementos que ajudam os jovens a tomar consciência sobre realidades muito presentes em suas vidas e que os levam a ser missionários, a sair sem medo nas ruas para fazer memória de quem deu a vida pela Amazônia, para lembrar a tantos jovens que hoje são martirizados pela violência, da qual muitas vezes o estado se torna cúmplice.

 As palavras do bispo local, Dom José Ionilton Lisboa de Oliveira, na missa de envio, lembrando a mensagem do Papa Francisco aos jovens na Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, “Ide, sem medo, para servir”, representam um desafio para os jovens presentes no 8º Encontro Regional da Pastoral da Juventude e para seus grupos de base, para se colocar “ao serviço da missão de Jesus, para a construção de uma sociedade mais justa, mais humana, mais profética”. O bispo de Itacoatiara destacou a importância do Sínodo para a Amazônia, a busca de novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral neste chão amazônico. 

Por Luis Miguel Modino
Fotos: Luis Miguel Modino











sexta-feira, 26 de julho de 2019

Líder indígena destaca a importância do Papa Francisco no processo de voltar o olhar para os povos originários

Patrícia (Foto: Luis Miguel Modino)
Considerada uma das vozes mais relevantes do povo Kichwa de Sarayaku, Patrícia Gualinga tornou-se referência internacional por defender a Amazônia equatoriana e seus povos, uma terra onde a fronteira extrativista continua avançando, sem respeitar as leis e com o apoio do governo equatoriano, que “se concentrou maciçamente na promoção de atividades extrativistas dentro dos territórios dos povos indígenas”, como ela reconhece.

Por  Luis Miguel Modino.

A líder indígena destaca a importância do Papa Francisco, que levou a Igreja a voltar seus olhos para os povos originários. Nesse sentido, Patrícia Gualinga assinala que “o povo pede um maior acompanhamento, a Igreja amiga, a Igreja com rosto de irmão que acompanha os processos onde se cometem injustiças”, algo que pode ser fortalecido com o Sínodo para a Amazônia, que é visto como uma oportunidade para "a Igreja se comprometer mais a estar do lado do povo", especialmente os povos indígenas, que "se tornaram objetos da ambição da economia global extrativista".

Ela afirma que “a contribuição fundamental que os povos indígenas têm a dar à humanidade é uma nova forma de relação com a natureza”, baseada no respeito, algo que ela vê como “essencial, porque senão o mundo se desconectou de tal maneira da natureza que estamos cavando nossa própria destruição”. Neste campo, destaca-se o papel da Rede Eclesial Pan-Amazônica - REPAM, que “realizou um trabalho de extrema importância e teve a sabedoria de saber relacionar a parte religiosa, católica e bíblica ao conhecimento dos povos indígenas, com a conservação da natureza”.

Patricia Gualinga lança uma mensagem aos padres sinodais, aos quais ela diz "não tenham medo da transformação", insistindo que "confiem em Deus", e "aceitem as mudanças que podem enriquecer a Igreja Católica, que há muitos anos precisava de uma transformação profunda”.


Confira a entrevista!

Qual é a situação atual dos povos indígenas na Amazônia equatoriana em relação à exploração dos recursos, muitas vezes incentivada pelo próprio governo?

A situação continua sendo o avanço da fronteira extrativista, as concessões em territórios indígenas, a tentativa de explorar áreas imensamente ricas em biodiversidade, onde são as nascentes dos olhos da água, como o chamado bloco 28, que fica na região da Cordilheira dos Llanganates, onde nascem todas as águas que vão para o Amazonas, como o Pastaza, Bobonaza e outros rios que vão abastecem os rios que são afluentes do Amazonas.

Há uma preocupação extrema com a violação da consulta prévia, livre e informada, sobre as tentativas de construir usinas hidrelétricas. O governo equatoriano concentrou-se maciçamente na promoção de atividades extrativistas dentro dos territórios dos povos indígenas.
O Papa Francisco, em 2017, no Terceiro Fórum Mundial dos Povos Indígenas, insistiu na necessidade de conciliar o direito ao desenvolvimento com a proteção dos povos indígenas e seus territórios e que o direito ao consentimento prévio e informado prevaleça, um ideia também presente nas resoluções das Nações Unidas. Por que isso não é levado em conta, por que não se respeitam essas leis?

Porque os governos tentam fazer prevalecer as leis menores, os decretos ministeriais ou presidenciais prevalecem, e eles não estão respeitando a Constituição, porque a Constituição é muito clara. Há falhas internacionais como Sarayaku, que segue padrões internacionais durante todo o processo de consulta prévia e informada e que deve haver consentimento quando se trata de atividades de grande escala que afetam os povos indígenas. É o governo quem realmente desrespeita a lei, a Constituição e o direito internacional. Embora o papa Francisco tenha frequentemente chamado ao respeito pelos direitos dos povos indígenas e da Amazônia, os governos estão se fazendo de surdos para tentar cumprir essa lei e com esses apelos.Até mesmo o cardeal Barreto, em um artigo publicado na semana passada na Revista la Civiltá Cattólica, disse que os países de onde vêm as empresas que saqueiam a Amazônia devem ser responsáveis pelas consequências das atividades dessas empresas. Como as organizações indígenas estão pressionando ou podem pressionar os organismos internacionais a esse respeito?

É verdade, as grandes empresas são tão organizadas que seus interesses não são afetados, que geralmente se acontecem julgamentos estão em cada país, eles estão em diferentes lados e é difícil chegar à sede das empresas. Já vivemos isso com o caso da Chevron no Equador. Mas também incluem artigos que, se a resistência dos povos indígenas significa que os estados não cumprem o dever de garantir a empresa, não estamos falando de garantias do Equador, mas garantindo que a empresa cumpra com a extração, eles cobram uma compensação milionária e vão embora. E se eles não concordarem com isso, eles os levarão à arbitragem internacional.

Existe uma organização tão altamente elaborada por empresas em que a sociedade civil e os povos indígenas não possuem esquemas que realmente protejam os direitos humanos. Embora os direitos humanos sejam protegidos dentro de organizações como a OEA (Organização dos Estados Americanos) ou a Corte Interamericana, aqueles que são julgados são os mesmos estados e não as empresas. Deveria haver uma instância que julgue violações de empresas extrativas, mesmo que extraterritorial, e nesse contexto eu acredito que não houve progresso. Houve queixas dentro das Nações Unidas sobre a questão da responsabilidade corporativa, mas são queixas que não são tão vinculativas dentro dos esquemas corporativos. Acredito que não atingimos o nível de formação daqueles espaços onde as empresas têm que responder por violações extraterritoriais que estão ocorrendo, seja na Amazônia ou em diferentes lados, onde sua responsabilidade é extremamente séria.
Até que ponto vocês, como povos indígenas, estão se sentindo apoiados pela Igreja Católica? Você falou sobre o caso Sarayaku e recentemente foi realizado um julgamento em que o governo equatoriano foi condenado, onde alguns religiosos, padres, bispos estavam presentes, vocês realmente sente o apoio da Igreja?

O caso Sarayaku foi julgado em 2012 na Corte Interamericana de Direitos Humanos, em San José, na Costa Rica, e no processo, se houve sacerdotes muito parceiros, mas a Igreja não tinha um papa como o que temos agora. Neste último caso, que é o dos Waoranis, que ganharam uma ação de proteção em um tribunal local, lá o bispo de Puyo esteve presente, a Igreja também tem feito companhia. Acredito que o impulso que o Papa Francisco tem dado, fez com que certos religiosos, missões e bispos, também estejam cientes dos processos que estão sendo realizados.

Eu acho que é um momento em que a Igreja sente uma mudança. Antes a Igreja era apenas para religião, fé, e falava apenas dos púlpitos. Acredito que as pessoas estão pedindo maior acompanhamento, a Igreja amiga, a Igreja com o rosto de um irmão que acompanha os processos onde as injustiças estão sendo cometidas, e acho que é o começo dessa transformação, de começar a pegar um fio para começar a avançar sob este guarda-chuva que abre com o Sínodo, que abre com a encíclica e que se abre com tudo o que está acontecendo. Vemos muito positivamente essa ação da Igreja que é muito nova, também para os povos indígenas.
Você acabou de falar sobre o Sínodo para a Amazônia, do seu ponto de vista, como uma líder indígena, o que você espera deste Sínodo para os povos da Amazônia?

Como sou leiga, não sou religiosa, o que espero é que a Igreja se comprometa mais a estar ao lado do povo, a ver aquele rosto amigo, não aquele que ordena, mas aquele que entende e escuta, aquele rosto amigo, de familiaridade que acompanha na dor sentida por este povo, que esteja muito mais próxima e não distante. Espero um compromisso da Igreja institucionalmente. O cardeal Barreto diz que somos Igreja, e é verdade que somos Igreja, mas falo da instituição da Igreja, para fazer esse acompanhamento, que se envolva, que apoie uma causa justa. Que não só permaneça na Igreja como a Casa de Deus, mas que a Casa de Deus seja estendida muito mais fora da catedral, das igrejas como estrutura de tijolos, mas que ela vá muito além, que caminhe ao lado do povo, que converse com o povo, que denuncie as coisas que estão acontecendo, que seja amiga e irmã do povo.
Nesse sentido, a vulnerabilidade da região amazônica é uma constante há séculos. O Sínodo, por meio do Instrumento de Trabalho, insiste em como enfrentar a vulnerabilidade que os povos indígenas sofrem. Quais você acha que são os principais desafios, as principais ameaças que os povos indígenas sofrem hoje na Amazônia equatoriana?

Eles sofrem a ameaça das indústrias, no nosso caso a maioria das violações dos direitos humanos é porque as indústrias querem entrar. Isso implica que as estradas são abertas, o que implica desmatamento, exploração madeireira, colonização e que todos os vícios entram. A questão da estrada implica militarização quando há resistência dos povos indígenas em respeitar seus direitos. Além disso, há as concessões de blocos de petróleo, garimpeiros, que estão em territórios indígenas. A maioria das violações que dizem respeito aos territórios indígenas se referem à ambição dos recursos não renováveis que estão em nossos territórios e, ultimamente, também às ambições do conhecimento dos povos indígenas.

Os povos indígenas tornaram-se objetos da ambição da economia global extrativista, que não se importa com os direitos humanos, que não se importa com a natureza, que não se importa com os ecossistemas ou com a humanidade, a fim de alcançar seu objetivo de extrair recursos e gerar riqueza para certos grupos, esse é o maior problema que estamos enfrentando na Amazônia.

O Papa Francisco na Laudato Se fala do cuidado da Casa Comum. No artigo a que nos referimos o cardeal Pedro Barreto, ele disse que para os povos indígenas a terra não é um bem econômico, mas um dom de Deus e os ancestrais que nela descansam e que os povos indígenas podem ensinar ao resto da humanidade como cuidar dessa Casa Comum. Nesse sentido, qual seria o ensinamento fundamental que os povos indígenas têm para comunicar ao mundo sobre o cuidado de Casa Comum, sobre o cuidado da criação?

É verdade que os povos indígenas viveram por milhares de anos em acordo e harmonia com a natureza, usamos o que a natureza nos dá para comer, viver e não a destruímos. A contribuição fundamental que os povos indígenas têm a dar à humanidade é uma nova forma de relacionamento com a natureza, essa forma de relacionamento respeitoso, uma visão profunda que faz a natureza ser considerada um ser vivo, sempre sujeito de direito. Não como algo que deve ser usado e descartado, mas é parte de nós mesmos.

Nós, como povo Sarayaku, esta proposta que faz esta visão profunda de relação com a natureza, de uma nova forma de relação que deve prevalecer, que deve ser promovida para a humanidade, nós a nomeamos como a selva viva, Kausay Saya, que está tentando ensinar ao mundo uma nova forma de relacionamento, e que os ecossistemas que estão conectados através da Terra não devem ser destruídos, manter o equilíbrio do planeta, e a Amazônia é uma deles. Há uma lenda que diz que todo conhecimento da natureza, dos ecossistemas, dos usos das plantas, de toda a visão, foi ensinado pelos santos da natureza. Esse conhecimento foi deixado na Amazônia, no mundo indígena, agora é tempo de que esse profundo conhecimento também seja compartilhado para essa sociedade, para esse mundo que está perdido. Eu acho que é essencial, porque se não o mundo se desconectou tanto da natureza que estamos cavando nossa própria destruição.
Como convencer de tudo isso, em face do Sínodo para a Amazônia, aos bispos, àqueles que participarão da assembleia sinodal, para que no documento final esses aspectos possam ser recolhidos e que o mundo possa se tornar mais consciente da importância dessa atitude?

Acredito que as coisas são muito claras na Bíblia, a Bíblia o expressa de tal forma que é muito bom ler realmente a Palavra em sua totalidade, é um livro muito sábio, mesmo para os seguidores de Cristo é como a base fundamental, de acordo com o meu critério. Cristo falou com a natureza, se relacionava com a natureza, falou com o vento, com o ar, com o mar. Foi um relacionamento muito profundo, não foi um relacionamento estranho, esse dom permaneceu nos povos indígenas e, portanto, a Igreja tem que reconhecer essa parte e protegê-la também. Nós temos São Francisco de Assis, também nisso, que falou com a natureza, nós temos elementos suficientes dentro do contexto bíblico que os bispos não podem se opor. Não estamos falando de algo que é estranho às escrituras bíblicas para os católicos, estamos falando de algo que incorpora a Bíblia e não foi interpretado dessa maneira.
Você tem uma relação próxima com a Rede Eclesial Pan-Amazônica - REPAM, que foi criada em 2014 e está desempenhando um papel importante no processo do Sínodo para a Amazônia. Você foi convidada em algum momento para participar de fóruns internacionais, eventos relacionados a esse assunto. Qual você acha que é a importância da REPAM para a Igreja da Amazônia, para os povos indígenas, para a região?

Sou colaboradora da REPAM e participei de alguns espaços que eles me convidaram. Acredito que o fato de terem valorizado a Amazônia e terem colocado a REPAM como espaço para promover isso é uma das coisas mais importantes. O fato de o Papa ter chamado o Sínodo e a REPAM também fazer parte dessa organização, demonstra que, pelo menos da parte da cabeça da Igreja, a importância está sendo dada à Amazônia, aos povos indígenas e à natureza. É por isso que me parece que a REPAM, com o cardeal Hummes, o cardeal Barreto e Mauricio López na secretaria, e toda a equipe que faz a REPAM no nível dos países amazônicos, fez um trabalho extremamente importante e teve a sabedoria de saber relacionar a parte religiosa, católica, bíblica com o conhecimento dos povos indígenas, com a conservação da natureza.

Isso é difícil de alcançar, em um contexto em que tanto o conhecimento indígena quanto o conhecimento da religião católica, de alguma forma, ao longo da história, sempre foram divididos. Conseguir, de alguma forma, colocá-los juntos, tentar explicá-los, parece-me ser uma tarefa fundamental em um contexto como o que estamos vivendo.

O Papa Francisco insiste fortemente na necessidade de fazer realidade uma Igreja com rosto amazônico e indígena. Você que conhece um pouco da realidade da Igreja e das cosmovisões e espiritualidades indígenas, acha que isso é possível? Qual seria o caminho a seguir nesse sentido?

Acredito que seja possível e, de alguma forma, os amazônidas o incorporaram à sua maneira. Eu acho que haverá certas surpresas, haverá algumas mudanças, mas não para os outros, porque elas sempre assimilaram isso. Para mim, a resistência não está nos povos da Amazônia, para mim a resistência é que o dogma, a estrutura da Igreja Católica, sua crença que tem que ser abalada de alguma forma, é a parte que se espera que seja assumida. Porque os religiosos podem dizer, bem, tudo bem, mas não é uma questão de tradução da fé católica na Amazônia, é uma questão de experiência, de compreensão, de unidade.

Não sei se realmente os religiosos atuais estão realmente dispostos a assumir este novo desafio, que é um desafio que provoca profundas mudanças, também no seu modo de ser, pensar e liderar a Igreja Católica. Para mim, dentro do contexto dos povos indígenas pode haver mais abertura, porque eles esperavam isso ou pelo menos eles estavam olhando para isso, mas dentro dos bispos, dos religiosos, que têm uma maneira pragmática de ver, que querem exercer autoridade de acima, a mudança vai demorar um pouco. Espero que eles aceitem e possam promover o que realmente está sendo promovido no Sínodo.
O Sínodo provocou reações contrárias em diferentes espaços, inclusive eclesiais. Este confronto com os postulados do Sínodo, você acha que eles vêm dos mesmos grupos, instituições, que tradicionalmente confrontaram o modo de entender a vida dos povos indígenas?

Acho que sim, a ideia de que os povos indígenas tinham que ser evangelizados, que eles tinham que ser civilizados, não mudou nas profundezas de algumas religiões. Houve alguns missionários comprometidos, que entenderam perfeitamente bem. Eu vi o bispo do Xingu, que me fascinou, e incorporou o jeito de lá. Mas há outros que estão se opondo, e acredito que o medo de chegar e ter um certo controle faz com que eles tenham essa reação.

Continuam a pensar que têm que nos converter e não começaram a ver que Deus está em toda parte, que Deus é tão grande que ele foi inculturado em diferentes espaços e que nos povos indígenas Ele está com uma forte presença. Eu acho que eles têm que abrir essa mente e tentar entender os desígnios de Deus. E se eles não o fizerem, e eles apenas se concentrarem em todo o esquema deles, bem, na verdade não vai fazer muito progresso e haverá resistência das duas partes. Isso não é o que se procurado, espero que eles reajam rapidamente, porque a Igreja precisa reagir, precisa ser povo também, precisa fazer parte, precisa ser amiga, que lhe daria maior riqueza e um crescimento espiritual, tanto na parte que se aproxima da Igreja como na mesma Igreja.

Se você tivesse a oportunidade de falar com os Padres Sinodais, o que diria a eles?

Não tenham medo de transformação. Eu diria a eles que confiem em Deus, eu lhes diria que tivessem fé e que Deus vai fazer o que ele tem que fazer, que aceitem as mudanças que podem enriquecer a Igreja Católica, que faz muitos anos precisa de uma profunda transformação. Talvez eu lhe contasse muitas outras coisas, mas é nisso que posso pensar agora.



Publicado no site http://www.ihu.unisinos.br/591101-a-contribuicao-fundamental-dos-povos-indigenas-para-a-humanidade-e-uma-nova-forma-de-relacionamento-com-a-natureza-entrevista-com-patricia-gualinga