segunda-feira, 22 de março de 2021

“Nós estamos privatizando a água, nós estamos roubando a água, nós estamos matando a água”, denuncia Dom Leonardo Steiner no Dia Mundial da Água



O Dia Mundial da Água tem se tornado uma oportunidade para "refletir sobre o valor deste maravilhoso e insubstituível dom de Deus”, como nos lembrava o Papa Francisco no Angelus deste domingo, 21 de março. Ele afirmava que “para nós crentes, a 'irmã água' não é uma mercadoria: é um símbolo universal e uma fonte de vida e saúde".

Organizado pelo Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental – SARES, acontecia na manhã do dia 22 de março um Ato Ecumênico com motivo do Dia Mundial da Água, conduzido pelo padre Sandoval Rocha, SJ, que contou com representantes das espiritualidades indígenas, Celina Baré e Marcivana Sateré, e do mundo cristão, com a presença da Igreja luterana, pastor Marcos Antônio Rodrigues, e da Igreja católica, padre Paulo Tadeu Barausse, SJ, e dom Leonardo Ulrich Steiner, arcebispo de Manaus. A doença impediu a presença da representante das religiões de matriz africana, Nonata Corrêa.

O ato tem sido uma oportunidade para rezar ecumenicamente e inter religiosamente a partir da questão da água, algo que está em relação com a Campanha da Fraternidade deste ano, que tem uma dimensão ecumênica. Rezar tendo a água como pretexto, desde a experiência religiosa de cada um, como lembrava o padre Sandoval Rocha no início da celebração, que começava com uma oração de benção, em língua nheengatu, conduzida por Celina Baré.




A água está em tudo, uma afirmação que cobra especial importância na vida dos povos indígenas. Segundo Marcivana Sateré, seus ancestrais, que habitaram a região amazônica durante milênios, deixaram rastos de vida, enquanto em 521 anos, o homem branco tem deixado um rasto de morte. Os povos originários descobrem na natureza os elementos sagrados que se são fonte de vida, lembrando a época em que sendo criança, Manaus era um cúmulo de fontes de água, que mostravam a presença de Deus, insistindo em que “ferir a natureza afeta diretamente o corpo de Deus”.

A pandemia da Covid-19, onde a água cobrou um valor decisivo para poder combater a doença, mostrou que em Manaus, mesmo cercados de grandes rios, “muitas pessoas sofrem a falta de água”, lembrava a indígena do povo Sateré. Segundo ela, “quando não temos acesso a esse elemento sagrado, a morte nos ronda”. Marcivana destacava a visão da água como remédio, como cura, como sinal de espiritualidade. Frente a isso, em Manaus a água poluída, algo em que insistia o Papa Francisco no Angelus do dia 21 de março, afirmando que a água poluída provoca doenças.

Cada vez é mais evidente que a ação do ser humano está modificando o Planeta, o que demanda, segundo Celina Baré, medidas para preservar a água, e com isso a vida. A indígena insistia na necessidade de respeitar a mãe terra, ainda mais numa sociedade onde o dinheiro, o lucro, tem sido colocado acima da vida, algo que está tendo graves consequências, especialmente na Amazônia, onde a salubridade das águas foi se perdendo como consequência da poluição, fruto da ganância.




A água faz referência a Deus, que já no início do universo, a primeira coisa que Ele faz é separar as águas. “Deus organiza a vida a partir da água”, destacava o pastor Marcos Antônio Rodrigues, lembrando que nós somos mais de 70 % de água. A partir daí, ele fazia uma leitura bíblica do significado da água, partindo da ideia de que Deus juntou o barro com a água para nos criar, “somos fruto da ação amorosa de Deus”. Essa água se faz presente no caminhar de Abraham e Sara desde Ur até Canaã, um caminho marcado por poços, onde o pastor luterano vê “Deus que acompanha e dá sustento até a terra da promessa”.

Essa água vai acompanhando a vida do povo de Israel, para quem Deus abre as águas para eles passar a pé enxuto, águas que são leves para quem escolhe a paz, mas pesadas para quem escolhe a guerra, a dominação, algo que também pode ser visto na passagem do Rio Jordão antes de entrar na Terra Prometida, onde o povo passa lavando a poeira do deserto. O pastor Marcos Antônio Rodrigues destacava que “Deus veio provendo a água da vida para seu povo”. É a água que está presente na vida de Jesus, no batismo no Rio Jordão, no poço onde se encontra com a samaritana, a quem oferece a água da vida. Uma água que nos faz viver a comunhão do Amor de Deus, que nos mistura no mar do amor, do perdão, da misericórdia, da compaixão.

Os rios tem sido definidos pelo padre Paulo Tadeu Barausse como “santuários da vida”, algo que tem que nos levar a refletir sobre a situação dos igarapés em Manaus. O diretor do SARES se perguntava por que e como matamos os igarapés, denunciando a relação muito danosa de Manaus com os igarapés e defendendo que é possível despoluir os rios e os igarapés, algo que tem sido realizado em outros lugares do mundo. Frente a isso, Manaus se vê ameaçado pelo projeto do Porto das Lajes, que coloca em risco o Encontro das Águas, algo que era denunciado no local no último dia 20, e mostra a primazia dos grandes projetos.




Celebrar o Dia Mundial da Água é motivo de esperança, segundo Dom Leonardo Steiner, recordando a importância da convivialidade com a água. O Arcebispo de Manaus relatava a experiência vivida com o povo Xavante, sendo bispo de São Félix do Araguaia, onde contemplou o rito da passagem de um grupo de adolescentes. Isso lhe fez refletir sobre a água como passagem na Sagrada Escritura, do Batismo como passagem, como a água como aquilo que faz caminhar. Dom Leonardo afirmava que “a água pede passagem, quando fica parada, ela morre”.

Lembrando a Francisco de Assis, ele falava da irmã água, pois “ela faz parte da minha irmandade, é uma irradiação do Amor de Deus”. Frente a isso, o arcebispo denunciava que “nós estamos privatizando a água, nós estamos roubando a água, nós estamos matando a água, a água que é irmã, a água que é serviço, a água que é cuidado”. Dom Leonardo dizia que “nós temos o desejo de que a água nos devolva a esperança”, enfatizando que “se continuarmos não apenas a celebrar, mas lutar pelo cuidado com a água, nós devolveremos, não só aos povos indígenas, mas também a nossa civilização ocidental, a preciosidade da água, a irmandade da água”.  



Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte 1

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